O DILACERAMENTO DO HUMANO E A DECADÊNCIA DE UM IMPÉRIO: UMA LEITURA DE “O ESPLENDOR DE PORTUGAL”,

 DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Luís Claudio de Sant’Anna Maffei – UFRJ

 

 

Como em seus outros romances, António Lobo Antunes carrega O Esplendor de Portugal de angústia. Angústia pela passagem do tempo, angústia pela seqüência de perdas que acabam por ser o resultado mais visível da experiência humana, angústia pela impossibilidade de resgatar o que ficou perdido pelo caminho, angústia kafkiana pelo não direito à morte.

O romance é polifônico, como tudo o que Lobo Antunes já escreveu em termos de ficção. Essa polifonia resulta, ainda que de maneira melancólica, em uma sinfonia, pois as várias vozes que constróem o romance interpretam, de distintas maneiras, histórias que desembocam no mesmo sítio: a infelicidade. A partir dessa constatação, pode-se afirmar que, ao mesmo tempo em que lida com situações bastante recorrentes em melodramas, Lobo Antunes realiza uma tragédia.

Não há como negar que várias das histórias que compõem O Esplendor de Portugal partem de arquétipos que não cairiam estranhamente em um melodrama: um exemplo claro disso, dentre vários outros possíveis, é o fato de um dos filhos do casal da família que protagoniza o romance ser ilegítimo, pelo menos por parte de pai. Só essa situação já permite que se vislumbre todo um conjunto de valores, nesse caso desonrados, bastante decisivos para o ser cultural e civilizado que o homem é: em primeiro lugar, deixa de haver a plena herança do sangue, tão valorizada pela cultura que chega a ser metonímia dos laços familiares; ademais, há a ruptura com uma das verdades familiares mais aceitas, em especial em uma cultura notadamente católica como é a portuguesa, já que também é um sacramento: a fidelidade, pois essa mãe trai o marido e deixa-se engravidar por outro homem. Como se não bastasse, o pai biológico do personagem Carlos é negro.

O preconceito racial, no caso dos personagens desse romance, ganha ingredientes que o tornam bastante mais terrível do que já é de modo geral: o primeiro é que negro, sob o ponto de vista do colonizador (caso da família em questão), é muito mais que uma etnia, é uma condição de inferioridade. Uma das estratégias mais recorrentes do processo colonizatório é retirar do colonizado seu status humano. Como afirma Edward W. Said, o colonizador geralmente buscou inserir o outro em “uma espécie de insipidez humana, que expusesse as suas características (...) e retirasse dele a sua embaraçosa humanidade”[1]. Entretanto, essa postura não impede que se tome o colonizado, no caso o negro, como um fornecedor de prazer, principalmente o sexual. Como o sexo pode ser visto como uma prática pouco mais que biológica (e é assim que Isilda, a mãe da família, o vê, principalmente porque sua necessidade de sexo não é suprida por seu pouco amado marido), nada impede o negro de ser seu fornecedor, da mesma forma que fornece também outros serviços que pouco exigem das qualidades mais nobres do homem, o intelecto especialmente. Mas ao deixar-se engravidar por um negro, Isilda permite que as fronteiras se esvaneçam, e não tem outra saída a não ser ter esse filho, que já nasce estigmatizado e leva a marca de mestiço por toda a vida, nunca podendo deixar de ser mais que uma indefinição, uma fronteira, um homem que não tem direito a ocupar lugar algum. Mas sempre é possível que o afeto consiga burlar as verdades do preconceito, e é o que acontece com a mãe de Isilda:

 

Sinceramente ignoro o que a minha mãe via na criatura mas quando estava a morrer foi a ela que chamou, não a mim, a ela que pediu ajuda para encontrar o ar que faltava segurando-lhe a mão, e agora imagine-se a minha figura...

(...)

(e se me troca por uma mulherzinha de senzala o que sou eu afinal?) [2]

 

Ter sua ajuda desprezada, pela própria mãe, em benefício da de uma negra é, para os valores arrogantes do colonizador, inaceitável. Mas, por outro lado, aponta para a emersão de um sentimento que despreza verdades insustentáveis diante de situações-limite.

Os irmãos de Carlos, o mestiço que acaba buscando, sem sucesso, na noite de Natal de 1995, resgatar o que não pode existir, a família, também são seres dilacerados. Como que mimetizando, hiperbolicamente, a atitude da mãe, Clarisse, irmã de Carlos, torna-se em um mulher incapaz de controlar seu ímpeto sexual, ganhando, assim, de seus próprios familiares, a tarja de prostituta: outra distorção do ideal familiar gera outra condenação. A personagem Clarisse jamais deixará de ser a prostituta, e seguirá como que obedecendo àquilo que seu estereótipo determina, ou seja, mantendo várias ligações pseudo-amorosas com homens que, via de regra, abandonam-na no final. A situação de Clarisse, que funciona como personagem de uma saga trágica, atinge seu paroxismo dramático quando ela descobre que tem câncer: é interessante notar que a infância geralmente é o ponto de fuga dos personagens quando se vêem diante de um drama presente:

 

não quero tubos no nariz, soro no braço, aquele remédio em que o cabelo cai e usamos turbante, um triciclo novo que me afaste muito depressa para longe do cancro...

(...)

a garrafa de meu pai

não tenho pai, não tenho pai [3]

 

Ter um câncer é tão dramático por produzir uma decadência física que não permitirá mais a Clarisse seduzir os homens que deseja quanto por aproximá-la da morte. Em ocasiões como essa, os personagens lembram-se imediatamente de sua infância, lugar de amparo mas também do início do desajuste. Clarisse era a filha que mais bem queria a seu pai alcoólatra, e tem como “Rosebud” incontornável um triciclo que ganhou na infância. Mas a presença da garrafa, símbolo daquilo que lhe vedou a continuidade do pai, faz impossível a fuga do cancro pelo triciclo, ou seja, pela infância.

A personagem não deixa, porém, de desprezar qualquer possibilidade de reconciliação com seu irmão Carlos, revelando, assim, o quanto de ilusório há nessa tentativa de reunir o que já se perdeu:

 

Quando telefonou para a consoada claro que respondi sim pelo prazer de o imaginar a noite inteira à espera na Ajuda onde me fez a vida negra durante três anos. O Carlos, tal como o conheço, de pinheiro num vaso, toalha nova, tacinhas de amêndoas, bolo-rei... [4]

 

Buscar o tempo perdido é uma herança proustiana de que Lobo Antunes sempre lançou mão. Entretanto, o que se passou é irrecuperável, pois o determinante da história dessa família de O Esplendor de Portugal é a impossibilidade de resgate, já que o próprio passado é feito de perdas: só resta, então, uma espécie de angústia que se debate por não se querer revelar, escondendo-se ou procurando desesperada um passado que é insuficiente para fornecer qualquer idéia de esperança; ou, ainda, determinando o surgimento de falsas esperanças que jamais poderão concretizar-se. Um exemplo disso é o discurso de Isilda, uma espécie de levantamento emocional da ruína de que é vítima desde que se vê sozinha em Angola:

 

... se o meu filho Carlos continuasse em Angola estou certa que não perdíamos a fazenda nem a casa estou certa que os americanos e os russos lhe pediam desculpa nos deslocavam militares para aqui a segurarem os contratados a comprarem-nos o girassol e o algodão... [5]

 

Ademais, essa angústia não se presta jamais a qualquer atitude de rebeldia, sendo geralmente silenciada por convenções ou por um medo culposo cuja origem é a própria existência (sentimento bem católico, bem à portuguesa), apontando, portanto, para um estado de coisas asfixiante. Essa asfixia de que são vítimas os personagens do romance tende a provocar uma idealização do passado em detrimento do presente, acabando por transformar o futuro em uma inviabilidade. Esse jogo temporal é uma das pedras de toque de Lobo Antunes, pois são revelados dois aspectos que caracterizam o país Portugal, nome próprio do título da obra e presença metonimizada pela família durante todo o romance. Os dois aspectos que Lobo Antunes levanta são o messianismo com que Portugal olha seu passado e a saudade. De acordo com um dos mais profícuos pensadores da questão Portugal, Eduardo Lourenço,

 

Tudo se passa como se Portugal fosse para os portugueses como a Jerusalém para o povo judaico. Com uma diferença: Portugal não espera o Messias, o Messias é seu próprio passado, convertido na mais consistente e obsessiva referência do seu presente.[6]

 

Da mesma forma, a família de colonos que se vê, fundamentalmente pela mãe que decide não ser uma retornada, arruinada, não consegue ter em seu campo de visão nada que não seja o passado, seu Messias. Entretanto, mesmo o Messias está de algum modo manchado, pois foi no passado que todas as questões que destruíram a vida presente dessas pessoas encontram suas raízes: assim também acontece com Portugal, cujo passado guarda, ao lado da glória e das aventuras de superação humana, toda a barbárie de várias colonizações violentas. Ao superdimensionar um passado, a memória, evidentemente, corrobora o dizer borgiano e transforma-se em uma das muitas formas do esquecimento, pois seleciona o que quer e o que não quer, de acordo com ser grau de desespero, ver. Não há como não ressaltar que a epígrafe do romance, um trecho do hino de Portugal, refere-se às “brumas da memória”: modificando o contexto da expressão, é possível ler essas brumas que enevoam a memória como a própria imagem desvirtuada do passado que só é lembrado como glorioso. Assim sendo, o presente nada mais é que um pretexto para um olhar retroativamente distorcido, não tendo, portanto, nenhuma possibilidade de construir o futuro. Na mirada de Lobo Antunes (autor que amalgama seu país, de maneira notavelmente desesperançada, à sua escrita), o futuro reservado para Portugal é o mesmo que a solitária Clarisse enfrenta ao amanhecer do 25 de dezembro:

 

Alguém disse o meu nome, talvez o Luís Filipe, talvez a minha mãe a chamar-me ou então fui eu que adormeci sem dar conta, a minha boca gritou

- Clarisse

e acordei com medo do meu nome no sofá da sala, diante da manhã do Estoril. Não da manhã ainda: as luzes continuavam acesas, os vidros não mostravam as palmeiras nem o mar...[7]

 

Ou seja, um futuro de delírios e de perdas: não há mais a mãe, não há mais o amante, não há nada além de uma fantasia tão carente quanto ególatra de ouvir seu próprio nome. Sequer há a manhã. Portanto, a partir de um passado aparentemente glorioso mas, mais profundamente, causa de todo o dilaceramento humano de que são vítimas os personagens no presente da narrativa, o futuro é o desembocadouro de um tragédia.

Quanto à semelhança com o trágico que guardam os arquétipos que carregam o romance de estratégias recorrentes na dramaturgia melodramática, é importante rascunhar a própria idéia de tragédia: fruto de um momento de crise da cultura grega, a tragédia é, necessariamente, a luta já de início perdida do humano contra seu destino, que é a morte, única e constante vitoriosa desse combate. A agonia insatisfeita do homem faz com que ele não possa renunciar a esse combate que jamais vencerá. Ademais, uma das razões mais gritantes para o desespero do ser trágico é a ausência de Deus. Miguel de Unamuno chega a afirmar que toda existência é trágica; portanto, todo homem é um personagem trágico. A ausência de Deus também é notória para o poeta espanhol, que ainda assim admite que crer nesse Deus é uma excelente e plenamente aceitável ilusão que torna a vida menos dolorosa, pois permite a fé em sua continuidade. Os personagens de Lobo Antunes, mesmo em um estado de sofrimento e desespero, lutam tragicamente pela manutenção de suas vidas. Mesmo o pai, que já está morto, não consegue deixar de estar como que preso à realidade da sua vida, mostrando-se, assim, incapaz de transcendê-la. É bastante plausível, portanto, na leitura da distância que a morte mantém dos personagens de O Esplendor de Portugal, e que sabe a uma vedação de consolo, um comentário de Blanchot sobre Kafka:

 

A ambigüidade do negativo está ligada à ambigüidade da morte. Deus está morto, e isto pode significar esta verdade ainda mais dura: a morte não é possível (...). Não existe fim, não há possibilidade de acabar com o dia, com o sentido das coisas, com a esperança. [8]

 

Essa esperança que mantém os personagens, mesmo o já morto pai, distantes do conforto da morte, provoca o comportamento patético dos integrantes dessa família, sempre à procura de algo que não mais há, sempre ao encontro de mais uma infelicidade: Carlos tenta reunir os irmãos, estilhaços de um corpo já irrecuperável porque padecente de uma enfermidade sem cura; Clarisse tenta ser feliz com um homem casado, que jamais abandonará sua família; Isilda decide, em um delírio passadista, celebrar a noite de Natal com os filhos que já partiram há muito para Portugal; e Rui, o outro irmão, é o paroxismo da situação de desajuste e dilaceramento que vive essa família (esse Império outrora esplendoroso): é doente mental. Em um romance recheado de impossibilidades, a maior delas é a assunção do afeto. O monólogo interior do pai morto torna bastante evidente essa inconfessabilidade do amor:

 

quando o que eu queria explicar à minha filha é que é tão simples, acho que gosto de ti, devo gostar de ti mas o meu gosto de ti afastou-se tanto que não sei, devo gostar de ti mas não me importo que fiques sozinha, não me preocupo contigo conforme não me preocupo comigo,... [9]

 

O que parece simples torna-se impossível, dada a única solução que a angústia não suicida propõe: a despreocupação com o outro e com o próprio, o desinteresse por aquilo de que se gosta, a renúncia, enfim.

O outro aspecto que diz respeito direto a Portugal que Lobo Antunes levanta no romance é a saudade. Não que seja uma questão primordial, mas ela está sempre sugerida a partir da primazia do passado sobre o presente. Nesse caso, é importante voltar a Eduardo Lourenço, que vê a saudade como a detentora da “missão de transmudar a perda em vitória de sonho”[10], ou seja, enxerga na saudade uma aposta na recuperação, ainda que em outro plano, o onírico, daquilo que se perdeu. Não é o caso, por exemplo, de um sentimento irmão da saudade, a nostalgia, inequivocamente presa a uma memória, a um passado. No caso dos personagens de O Esplendor de Portugal, entretanto, não há saudade nem nostalgia: há tragicidade, e isso é comprovado pela ausência de qualquer plano onírico que não seja escapista e de qualquer presença divina. Os únicos sinais de Deus são meramente espectrais: há a data dos capítulos que tratam do tempo presente do romance, 24 de dezembro, noite de Natal; ademais, Deus não é nada mais que uma entidade feita à imagem e semelhança do homem, nada tendo de confortante ou de metafísico, já que, nas palavras de Isilda,

 

se me perguntarem se acredito em Deus não faço a menor ideia do que respondia mas se Deus existe é branco e portanto não sobeja Deus para os pretos de onde resulta que se fosse preta não acreditava em Deus ou antes nem sequer a ideia de Deus me vinha à cabeça por um momento ocupada como estava com a lepra a fome o paludismo e assim... [11]

 

E a ausência de Deus, acrescida da angústia gerada pela consciência heideggeriana de que o homem é contingência e finitude, configura definitivamente o trágico do romance.

Para concluir, é importante observar que a própria estrutura de O Esplendor de Portugal, apresentando capítulos que, cronologicamente, têm andamento, e outros tantos que dão conta de um único dia, rascunha que o futuro não está, pois o tempo é o da angústia, e essa não caminha. Finda a família e desfeito o Império, resta rumar pelos destroços até o termo da existência, até o louvor de um Deus morto.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. 2. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1997.

BLANCHOT, Maurice. A Parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas. Barcelona: Emecé, 1996. v. I.

LOURENÇO, Eduardo. Mitologia da saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

___________________. Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: Imprensa Nacional, 1988.

SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

UNAMUNO, Miguel de. Del sentimiento trágico de la vida. 7. ed. Buenos Aires: Losada, 1998.



[1] SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 158.

[2] ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. 2. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1997. P. 227.

[3] Idem, p. 297/298.

[4] Ibidem, p. 293.

[5] Ibidem, p. 136.

[6] LOURENÇO, Eduardo. “Identidade e memória: o caso português”. In --- Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: Imprensa Nacional, 1988.p. 10.

[7] ANTUNES, António Lobo. Op. cit. p. 369.

[8] BLANCHOT, Maurice. “A Leitura de Kafka”. In --- A Parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.p. 15.

[9] ANTUNES, António Lobo. Op. cit. p. 376.

[10] LOURENÇO, Eduardo. “Da saudade como melancolia feliz”. In --- Mitologia da saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 33.

[11] ANTUNES, António Lobo. Op. cit. p. 236.